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segunda-feira, janeiro 05, 2009

Fim de ano 1˚ dia

Depois de um longo tempo na África do Sul, cá estamos de volta!
Muito a contar e muito a refletir sobre nosso vizinho africano.

Vamos começar a postar somente agora pois não tivemos como fazer isso de lá. Desde já gostaríamos de agradecer a um casal amigo que foram nossos guias turísticos nesta viagem; Al. e An, muito obrigado por todos os dias de nosso "Happy New Year"!

dia 27 - 1˚dia de viagem

Partimos de Maputo, em direção a Johannesburg dia 27 de Dezembro. O ponto onde pegamos o "chibombo" foi em frente ao Correio, aquele mesmo das cartas perdidas! A viagem durou cerca de 07 horas, com apenas uma "paragem" onde mais algumas pessoas entraram e tivemos tempo para um almoço rápido de 10 minutos.

Tínhamos algumas metas para essa semana de férias:

1 - comprar algumas coisas que em Maputo são muito caras
2 - adquirir algum artesanato sul-africano
3 - visitar 3 cidades (Johannesburg, Pretoria e Durban)
4 - resolver o problema de visto da Thá
5 - saber mais sobre a história da África do Sul

O ônibus não é assim uma "Viação Itapemerim", mas dá para ir, tem ar condicionado e tudo mais. Partimos às 7hs, seguimos pela N40, uma estrada que vai de Maputo, passa pela fronteira em Ressano Garcia, segue com o nome de N4 e nas últimas duas horas de viagem torna-se N12, sentido Johanesburg. Passamos ao lado de um dos portões do Kruger Park, o maior safari da África do Sul, onde é possível avistar da estrada Kudus, Impalas e outros Antílopes.

Essa foi a nossa rota:




Na fronteira nada de novo, um pouco de bagunça, muitas pessoas indo e vindo. O bom é que desta vez, tivemos mais tempo para as fotos. Como era final de ano, a fila era enorme. Sul-Africanos com seus carros de luxo, iates e traillers entrando em Moçambique, rumo as praias paradisíacas do Norte e do outro lado, Moçambicanos se aventurando na terra dos Afrikkans em busca de conforto, hotéis, teatros, restaurantes e bom atendimento.

A fronteira de Ressano Garcia é uma das maiores entre Moçambique e África do Sul. É por ela que passamos para fazer nossas compras em Nelspruit e para passear no Kruger Park.

Por esta placa dá para ver que a preocupação com a Cólera e com outras doenças não é muito levada a sério, vimos apenas esta em inglês, nada em português e nem sobre malária, ou outras informações.

Desta vez o trajeto que fizemos foi diferente. O ônibus nos deixou na fronteira de Moçambique e após carimbarmos nosso passaporte, atravessamos a pé para o outro lado, já na África do Sul.

Para aqueles que resolvem viajar em um sistema mais econômico, existem os "chapas" um meio de transporte não legalizado. Tratam-se de vans, muito velhas, que levam as pessoas para um ponto específico, isto é, poderíamos pegar um chapa para a fronteira e de lá um outro para JB. Não há nenhum corforto, nem segurança, é comum as histórias de chapas que quebram ou largam os passageiros no meio da estrada.

Foto da fronteira, lado sul-africano: vendedores de "comidas" e "chapas" ao fundo.

Chegando em Johannesburg (JB)

África do Sul, ao contrário de Moçambique, cultiva boa parte de seu território, durante a viagem é possível ver as plantações de cana de açúcar, laranja, todos com sistema de irrigação e muito bem cuidados. Já na estrada nota-se a diferença entre os dois países. Em Moçambique o que mais se vê são: caatinga, casas bem pequenas e "machambas" - plantações de subsistência.

Outra coisa que chama a atenção é o número de mineradoras que existe por toda a África do Sul; enormes. Montanhas de minérios, ouro, platina e outros metais. Ao redor, casas simples, feitas de telhas de zinco, onde os pobres trabalhadores vivem. Foram nestes locais que a xenofobia do segund semestre do ano passado eclodiu de maneira mais agressiva, locais afastados das cidades grandes sem infra-estrutura. Na foto ao lado uma montanha de minério de ferro em meio a paisagem.

Depois de seis horas de viagem, a estrada começou a ficar mais "urbana", com carros, e que carros, nada de carros populares, aqui a coisa é séria!

A cidade surge no
horizonte e com ela prédios, universidades, shopping centers.

Engraçado é perceber como as coisas estão invertidas para nós. Este ano buscamos passar as férias em uma cidade grande e fugir da calmaria e tranquilidadade de onde trabalhamos e vivemos. Para um paulista é muito estranho pensar assim!

Chegamos por volta das três horas da tarde em JB, nosso amigos já estavam a nossa espera e como estávamos morrendo de fome (por culpa da Thá que não deixou eu almoçar na fronteira!) fomos direto a um restaurante, o primeiro ponto turístico de JB; a estátua de Mandela ao centro de um grande complexo de lojas, restaurantes e hotel cinco estrelas.

O almoço foi muito bom: comi meu primeiro antílope com molho de cogumelos acompanhado de um excelente vinho sul-africano.

A noite fomos para o Monte Cassino, aqui o conceito de cassino é mais próximo de um centro de compras, um Shopping com inúmeras lojas, teatro. Estava em cartaz "A Bela e a Fera" da Disney. A decoração temática, lembra a Itália, com "casas, torres, fontes", muito parecido com o que eu já havia visto "em fotos". As pessoas que visitam e frequentam esse enorme espaço são sul-africanos, turistas, indianos e muçulamanos. Aqui as "mulheres ninjas", as mulçulamanas com burcas que cobrem todo o corpo e rosto, passeiam livremente, sem problemas e preconceitos.

Ao saírmos do cassino três coisas chamaram a nossa atenção:

1 - Na entrada e saída além dos costumeiros guichês que servem para pagar o estacionamento; eles usam "pregos no chão" que furam os pneus dos carros, caso o condutor não tiver o pago o estacionamento ou esteja fugindo.

2- Ao sair do cassino; o segurança pára o carro e pede ao motorista para ver as chaves. Dessa maneira ele checa se não foi feito uma ligação direta e o carro não está sendo roubado.

3 - Nas ruas é engraçado ver a vizinhança. Praticamente um muro de frente para outro muro, sem janelas ou portas. A cidade é constituída de condomínios fechados, não existem crianças nas ruas, pessoas caminhando, em alguns locais nem calçada existe, apenas muros.

Depois de nosso excelente jantar, diga-se de passagem - comemos deliciosos sushis e sashimis, fomos para o nosso B and B "Bed and Breakfast". Casas grandes, que são adaptadas para receber visitas, ou para serem alugadas a turistas. Praticamente uma Kitnet. Cada apartamento tem quarto, cozinha e banheiro totalmente equipado (torradeira, geladeira, fogão, panelas...) além de uma área de convivência, piscina, churrasqueira e estacionamento.

Após esse longo dia fomos descansar. Sem saber o que nos reservava no dia seguinte...

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Cólera no coração da África Austral

Zimbábue a "Casa de Pedras" ao centro da África Austral, o país mais rico da África, independente desde 1980 é agora um cenário de "RESIDENT EVIL" com zumbis "coléricos".

Como não sou jornalista é claro que demorei muito mais do que esperava para conseguir escrever este texto, comecei a escrever no dia 8, feriado Muçulmano (Eid ul Adha - comemoração do final a peregrinação a meca) pouco visto no Brasil, mas que agora sei é tão grande quanto o Natal, e só terminei agora!

Infelizmente estou acompanhando as últimas notícias a respeito da cólera pelo mundo e vejo que muitas informações não estão sendo levadas em consideração: a crise política no Zimbábue de Robert Mugabe, a história política dos países fronteiriços e a atual estrutura de saúde em boa parte dos países da África Austral são fatores que indicavam a crise atual.

Assim como no Brasil, a cólera é uma doença presente, que tem que ser combatida sistematicamene, está em quase todos os países da África Austral exceto Angola e Namíbia.

(foto da fronteira em um dia comum, comércio de alimentos e "chapas" ao fundo, que negociam a viagem até a cidade mais próxima)

Zimbábue está a mais de uma década em crise e Mugabe está no poder desde 1980, seu povo esta fugindo da fome, miséria e total falta de estrutura social e governameental. Faz anos que governos de outros países assistem a esta situação e apenas foram noticiadas, em forma de ironia, notas sobre os 100.000.000 (cem milhões de dolares Zimbabueanos). E o que foi feito pela comunidade Internacional; União Européia, SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral) ou UA (União Africana)? Após as eleições de 2008, houve por parte dos EUA um embargo economico, e por parte das ONGs um trabalho constante de remediar o desastre para onde se seguia o país.

Somente agora, nos últimos dias, é que estas questões estão sendo levadas ao Conselho de Segurança da ONU, principalmente pela possibilidade de uma intabilidade generalizada por toda a África Austral.

" A União Africana, que tem 53 membros, disse que a única solução para a crise política e econômica no Zimbábue são as negociações entre os rivais políticos"


Ao redor do Zimbábue, países como Moçambique, Zâmbia, Botswana vivem uma estabilidade extremamente frágil e recente, mesmo a froteira com a África do Sul, próxima sede da copa do mundo de 2010 não é preparada para qualquer situação diferente da habitual.

A economia de boa parte destes países é baseada em investimentos internacionais (doações), cerca de 60% do Pib destes países são de dinheiro internacional (em Moçambique chega a 80%), com exceção a África do Sul e Angola, não há indústrias, mercado consumidor, a maioria da população vive das machambas (agricultura de subsistência) sendo as poucas indústrias existentes nestes países extremamente frágil e incapaz de absorver tal crise.

No caso do Zimbábue praticamente toda a economia acabou, inflação de 231.000.000% não há alimentos, tudo que é produzido no Zimbábue, que já é pouco, é comprado e enviado par o estrangeiro, boa parte do que se consome de frutas e legumes em Moçambique e África do Sul é do Zimbábue, os salários, pagos em moeda Zimbabueana não tem mais valor, pois a própria moeda do País não é mais aceita em boa parte do mercado, e assim como Dillan, meu professo Zimbabuano, a tempos que os Zimbabueanos estão deixando seu País.

(foto: lado moçambicano da fronteira, uma pequena cidade sem rede de água e esgoto)



Atual situação da Cólera (estes dados mudam dia a dia)

Zimbábue:
Casos de cólera em todas as 10 províncias do País, vale a pena observar que os dados oferecidos não são mais do governo, e sim da ONU, que estima em 15.219, podendo chegar a 16.000 pessoas infectadas, e 774 casos de óbito, podendo chegar a 800, estes dados são de pessoas presentes nos centros da ONU. Com certeza os números são maiores, devido a pessoas que não procuram os centros médicos e a incapacidade da ONU de cobrir toda a extensão do país.

Estas pessoas infectadas não estão mais recebem atendimento adequado, não há mais leitos, remédios, comida e nem água potável, estão fugindo, andando dias a pé ou de boléia (de carona) para os países vizinhos, vem sem documentos, sem passaportes (quem sabe como é o passaporte do Zimbábue?), desnutridos e, sem estrutura, contaminando novas pessoas pelo caminho.

Já há relatos de cólera em Botwana e Zâmbia, países que tinha a cólera sobre controle.

Mesmo no Congo, que não faz fronteira com o Zimbábue e que passa por uma situação de guerra civil, há relatos da única organização ainda no território, os Médicos sem Fronteiras, relataram 45 casos de cólera próximos ao distrito de Goma, ao sul do país.

Mas é na África do Sul e em Moçambique, países que tiveram um surto de cólera em 2004, que se encontra um fuxo maior de pessoas em fuga e novos casos de cólera.

Na África do Sul
A fronteira terrestre de Beit Bridge, sobre o rio Lipompo, nome da Província ao norte do país, é o ponto de maior tensão, muitos Zimbabuanos estão se deslocando para lá, devido a proximidade com a capital do Zimbábue, e em busca de material de primeira necessidade: alimentos, remédios e água potável e mesmo para atravessarem a fronteira para a África do Sul em busca de tratamento, a vila de Musina, 12k de lá já relata oficialmente cerca de 619 zimbabuanos contaminados destes 66 internados e 8 casos de óbitos (isto a 3 dias atrás). Há relatos de filas de mais de 7 horas na fronteira, de pessoas sem documentos e sem condições de atravessar, estão sem rumo e sem caminho a seguir.

Não vamos esquecer que a 3 meses atrás na África do Sul houve um surto de xenofobia contra os zimbabuanos, Moçambicanos e outros povos devido a falta de trabalho no país, que teve um saldo de 6 mortes e várias casas pilhadas, além de espancamentos e roubos.

Em Moçambique a situação não está melhor, 4 dos 10 distritos fazem fronteira com Zimbábue:

(foto: Policiais da fronteira organizando a "bixa" de carros e cobrado "refresco" aos apressados)

Com fronteira terrestre com Zimbábue.

Tete:
onde a vale do Rio Doce, está trazedo 2.000 brasileiro e contruindo uma de suas unidades já relata 83 casos da doença
Manica:
relatam 116 contaminados e 48 a 51 óbitos por cólera (não confirmados).
Maputo:
um óbito, sem dados de contaminados

Sem fronteira terrestre com o Zimbábue

Zambézia:
59 casos de cólera, 2 óbitos confirmados
Cabo Delgado:
1 óbito confirmado

(fontes: números fornecidos por Jornais Moçambicanos)


O sistema de Saúde em Moçambique é extremamente falho, mas segundo as autoridades, esta sendo "preparado" para atender a população.

Atualmente um caso de cólera atendido em qualquer localidade do país vira uma ficha preenchida a mão pelo médico da localidade, estas fichas são arquivadas e enviadas mensalmente para o Ministério da Saúde por CORREIO, chega e leva em torno de um mês para ser lida e analisada, portanto o tempo de resposta do ministério da Saúde a uma Epidemia tem um atraso em média de 2 meses, isso se o correio funcionar.

Há ainda relatos como o da igreja Johan Marangue, em Manica, que se recusaram aos tratamentos e medicamentos, levando a morte de vários de seus seguidores.

Próxima postagem: A viagem daqueles que fogem do Zimbábue.

Notas:

A cólera (ou cólera asiática) é uma doença causada pelo vibrião colérico (Vibrio cholerae), uma bactéria em forma de vírgula ou bastonete que se multiplica rapidamente no intestino humano produzindo uma potente toxina que provoca diarréia intensa. Ela afeta apenas os seres humanos e a sua transmissão é diretamente dos dejetos fecais de doentes por ingestão oral, principalmente em água contaminada.

África Austral:
África do Sul
Angola
Botsuana
Lesoto
Madagáscar
Malaui
Maurícia
Moçambique
Namíbia
Suazilândia
Zâmbia
Zimbabue

Mapa do Zimbábue e fronteiras